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The Head of the Saint: Book Notes & Literary Review

Leitura de A Cabeça do Santo no Kindle

Comecei a ler A Cabeça do Santo depois de ver tanta gente rasgando elogios na internet.

Mais de 36 mil avaliações na Amazon, nota 4,8, bênção de ninguém menos que Gabriel García Márquez em Cuba. Quase todo mundo dizendo a mesma coisa: que é um livro gostoso, leve, daquele tipo que “aquece o coração”.

Puxei o livro para ler em uma viagem de ônibus que fiz para São Paulo no feriado de Corpus Christi, já que são cerca de 6 horas para ir e 6 para voltar (se não tiver trânsito, claro).

São só 176 páginas. A leitura voa, a escrita de Socorro Acioli é simples, fluida, quase como ouvir alguém contando um causo na calçada de casa.

E preciso ser justo: gostei demais da facilidade da leitura. Não é um texto travado nem forçado. Além disso, as descrições das cidades e das situações do sertão são excelentes. Dá para visualizar direitinho o calor, a poeira, o ritmo mais lento do interior do Ceará e aquele dia a dia tão característico de cidade pequena. Nisso a autora foi muito feliz.

Mas, passado o encanto do cenário, vou ser bem sincero com vocês: minha experiência com a história passou bem longe desse romantismo todo.

Para começo de conversa, se você espera uma grande reviravolta ou uma virada de roteiro daquelas de cair o queixo, pode esquecer. O livro é muito simples. Linear, direto ao ponto, sem nenhum mistério elaborado.

Só que, enquanto a maioria das pessoas se encantou com a poesia sertaneja e o tal do “realismo mágico”, o que realmente bateu forte em mim foi um incômodo.

O personagem principal, Samuel, não me desceu. Para mim, ele é um tremendo aproveitador. Um safado, para falar o português claro.

A história básica você provavelmente já ouviu: ele sai a pé pelo sertão para pagar as promessas da mãe que morreu. Vai parar na cidadezinha de Candeia e se abriga dentro da cabeça oca de uma estátua gigante de Santo Antônio que ficou largada no chão por obra inacabada.

Lá dentro, ele passa a ouvir os sussurros das mulheres da cidade implorando por um amor ao santo casamenteiro.

E o que ele faz com isso?

Em vez de ter o mínimo de respeito pela dor e pela intimidade daquela gente, ele enxerga uma oportunidade. Começa a tirar proveito da ingenuidade de pessoas humildes, que não têm nada na vida além da própria fé. Passa a fingir que é um mensageiro do santo para se dar bem.

Foi aí que o livro me pegou de verdade, mas pelo lado crítico.

Ficou muito evidente para mim como a religião e a falta de tudo deixam as pessoas vulneráveis à manipulação mais básica. O povo de Candeia estava tão precisando de uma esperança que qualquer espertalhão falando manso virava mensageiro de Deus.

É uma hipocrisia escancarada: rituais cheios de emoção convivendo de mãos dadas com a malandragem de quem sabe enganar.

No final das contas, fechei o livro sem sentir aquele quentinho no peito que todo mundo comentou nas avaliações.

Valeu a leitura pelo retrato vivo do sertão e pela leveza gostosa das páginas, sim. Mas o que ficou marcado comigo foi essa conclusão amarga: como o desespero humano faz a gente acreditar em qualquer coisa, e como sempre vai ter alguém pronto para lucrar em cima da fé alheia.

E você, já leu A Cabeça do Santo? Teve essa mesma impressão sobre o Samuel ou enxergou outra história ali? Se quiser conferir a obra por conta própria: